quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Cova rasa.

Minha vida é movida a histórias e desde criança escuto "causos" do meu avô, histórias essas que muitas vezes ele nem gosta de falar, coisas do tipo: Sucuri que engoliu pescador, porteiras mal assombradas... e essa que vou contar pra você, é uma das que ele nem comenta. Sei que pode parecer fora do contexto, mas fez parte da minha infância ouvir esse tipo de coisa.

Quando meu avô era bem novo, casado não mais que dois anos e morando numa fazenda no interior de Minas Gerais, aconteceu uma coisa que ele não gosta de comentar até hoje.
Era uma cidade como qualquer outra pequena cidade do interior de Minas, tinha um pequeno comércio local, uma praça, um coreto e uma igreja.

Toda semana meu avô ia com o seu cavalo até a cidade comprar mantimentos, assim como ele, muitos que moravam e trabalhavam em fazendas nas redondezas tinham o mesmo destino, o centro da cidade. Inclusive José Venâncio, capataz de uma fazenda vizinha a que meu avô trabalhava.

José Venâncio era conhecido por sua maldade. Era fácil vê-lo chutando cachorros na rua, atirando em pequenos animais domésticos e gritando com crianças. Era um cabra que tinha a maldade entranhada no coração. Muitos tinham medo ou certo receio do que ele pudesse fazer.

A pequena cidade estava bem movimentada por causa das comemorações de São João, o dia estava bonito, não tinha sequer uma nuvem no céu. José Venâncio apareceu na cidade com seu cavalo negro, seu bigode enorme e a barba como sempre por fazer.

Muitos seriam testemunhas do que estava pra acontecer naquele lugar. José Venâncio partiu em desparada com seu cavalo pela pequena rua que circundava a praça, onde várias pessoas estavam. Alguns conseguiram sair da frente daquela BESTA, mas o padre não teve a mesma sorte. Atingido em cheio e mesmo caído, o padre num impulso de muita raiva, olhou na direção do homem que cavalgava sem se importar com o quê ou quem havia atingido e exclamou frases sinistras em latim, como se fossem lâminas prontas pra cortar a carne de José Venâncio. O povo nunca tinha visto aquela expressão no rosto do padre.

Todos que presenciaram aquela cena, ficaram muito assustados ao ver o Padre Bino, um senhor tão calmo e bondoso, excomungar com tanto fervor aquele homem. Naquele instante o céu escureceu, nuvens pesadas e carregadas se formaram e um vento forte e quente começou a soprar. Coincidência? Ninguém sabe.

Meu avô assistiu a tudo sentado num bar em frente a rua onde tudo isso aconteceu. Viu quando algumas pessoas levaram o padre Bino até a igreja. Por ser um senhor de idade avançada, não resistiu aos ferimentos e morreu.

Meu avô foi pra casa muito perturbado com tudo que acabara de ver, chegou em casa pálido sem querer muito assunto, mesmo minha avó insistindo muito ele não falou o que deixou ele daquele jeito. Olhou no berço ao lado da cama onde estava seu primogênito dormindo, e sentiu um arrepio na espinha ao lembrar do que ele viu naquela tarde.

Não se sabe ao certo como aconteceu, mas a notícia que correu pela cidade, era que José Venâncio havia sido encontrado morto no dia seguinte do acontecido. Falaram que o cavalo se assutou com um raio, derrubando José Venâncio da cela, na queda ele bateu com a cabeça numa pedra e morreu na hora.

Foi enterrado numa cova rasa, sem direito a se quer um velório. Dizem que foi enterrado praticamente onde caiu, era um homem odiado por muitos, ninguém queria ter trabalho com um traste daquele. Como diz o ditado: "Não se gasta velas com difunto ruim!"

Meses se passaram e coisas estranhas começaram a acontecer nas proximidades da cova de José Venâncio. Numa noite, meu avô voltando da cidade, pensou em cortar caminho por uma pequena estradinha, derrepente seu cavalo impinou e não queria passar de jeito nenhum por ali, então ele lembrou que era ali que estava enterrado José Venâncio. O jeito foi dar a volta e tentar não pensar mais naquilo.

Onde ele foi enterrado não crescia mato, e todas as plantas morreram num raio de 20 metros. Antigamente as crianças andavam muito até chegar na escola, e algumas passavam exatamente pela velha estradinha, e sem querer, descobriram que enfiando um capim na cova de José Venâncio, o capim era imediatamente sugado pra dentro da terra. Na inocência das crianças aquilo era pura diversão.

Numa noite de céu estrelado, um forte cheiro de carniça tomou conta do ar, era difícil até de respirar. Vinha como ondas com a brisa. Num certo dia, meu avô levantou pela manhã pra cuidar dos afazeres da fazenda, ao abrir a porta teve uma desagradável surpresa. Na porta haviam várias galinhas, uma do lado da outra, arrumadas como numa formação militar, todas com o pescoço torcido. Era uma visão perturbadora, não havia sequer uma gota de sangue nas aves, todo ele tinha sido sugado.

No fundo meu avô sabia quem tinha feito aquilo. Isso aconteceu também em várias outras fazendas. Todos estavam muito assustados, mas mesmo assim foram até a cova de José Venâncio, e descobriram que ela estava vazia.

Nessa noite meu avô não dormiu, ouvia barulhos estranhos fora da casa. Passou a noite sentado numa poltrona, agarrado com uma garrucha velha e na sintura um 38 cano longo. Não se via, nem se ouvia nada à dias, na verdade foram semanas de uma calmaria mórbida. Após a terceira semana, pouco antes da meia noite, meu avô e minha avó acordaram com barulho de unhas na janela. Era como se algum bicho selvagem quisesse entrar na casa, como se ele quisesse pegar alguma coisa ou alguém. A tal "coisa" ficava rondando a casa, procurando uma brecha pra entrar.

O barulho parecia que vinha de todos os cantos, foi quando meu avô percebeu o que ele tanto queria pegar. Era o bebê de poucos meses, que estava no berço próximo a janela. Numa atitude desesperada e movido pelo medo de perder o filho para aquela "coisa", meu avô abriu a janela e atirou, caido para trás.

Ele conta que o que viu, não gosta nem de lembrar. Era meio humano, meio bicho. Andava de quatro com unhas enormes, tinha um corpo esquelético que fedia a carne podre.

A tal criatura se embrenhou no mato e depois disso nunca mais foi vista. Segundo o meu avô, ele não quis mais viver naquele lugar e se mudou para o Rio de Janeiro com a família. Só consegui ouvir essa história depois de muitas garrafas de cerveja.

Mas se perguntar pra ele sobre tudo isso, ele vai fechar a cara e mudar de assunto.

Dedicado a memória de meu avô. RIP
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1 comentários:

  1. Sinistrooo!!!
    Era o Chupa Cabras ou o Werewolf? rs
    Abraços
    Barfly

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